O Déjà vu e a sensação de já ter vivido este momento

Você já teve aquele pressentimento de que algo que está vivenciando no momento presente já ocorreu antes? Que a pessoa que te apresentaram, você já conhecia há muito tempo? Que já esteve naquele lugar? Que já assistiu aquele filme? Ou leu aquele livro? Até mesmo já viu o gato fazer o mesmo miado anteriormente? Tudo isto acompanhado de um sentimento de estranheza e dúvida? Esta sensação é tradicionalmente chamada de Déjà vu, termo de origem francesa que significa literalmente “já visto”.

No entanto, essa tradução literal está longe de abarcar a complexidade do fenômeno. O que se vivencia não é apenas a impressão visual de algo já observado, mas também um conjunto de sensações que envolvem memória, emoção, tempo e identidade. É como se, por alguns segundos, as fronteiras entre passado e presente se dissolvessem, criando uma fissura na experiência comum do tempo.
Via de regra, o Déjà vu trata-se de um fenômeno que se manifesta sem aviso, interrompendo a linearidade do cotidiano e lançando o indivíduo em um estado de estranhamento difícil de traduzir em palavras. Subitamente, o momento presente parece carregar um peso de passado, como se o agora estivesse impregnado de algo que já foi vivido, sentido ou sonhado. Junto a isso, nos acompanha uma sensação mais profunda, quase visceral, de familiaridade, como se a experiência estivesse sendo repetida com exatidão inquietante, como um filme a que estamos assistindo pela segunda vez. Essa percepção, muitas vezes, é acompanhada por um desconforto, um tipo especial de dúvida que ecoa na nossa consciência: “Por que isso me parece tão conhecido?”

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Ilustração autor Escher

Entre o cotidiano e o mistério

O mais intrigante no Déjà vu não é apenas sua ocorrência, mas principalmente o modo como ele desafia nossa compreensão habitual da realidade. Vivemos, em geral, orientados por uma noção linear de tempo: o passado como algo encerrado, o presente como o instante que escorre entre os dedos, e o futuro como uma promessa incerta, algo desconhecido que, por mais que tentemos prever, jamais saberemos ao certo como será. O Déjà vu, contudo, parece subverter essa lógica. Ele sugere, ainda que de forma fugaz, que o tempo pode não ser tão rígido quanto imaginamos, ou que nossa percepção com ele é mais complexa do que supõe o senso comum.

Essa sensação pode surgir diante de uma pessoa recém-apresentada, despertando a impressão de uma intimidade antiga, como se vínculos invisíveis precedessem aquele encontro. Pode emergir ao caminhar por um lugar desconhecido, mas que se revela estranhamente familiar, como se já tivesse sido percorrido em outra época ou sob outra forma. Pode até ocorrer em situações triviais, como ouvir uma frase específica, assistir a uma cena ou presenciar um gesto aparentemente comum, mas carregado de uma repetição inexplicável. Nesses momentos, é nítido a sensação de que “isso já ocorreu antes”, mas não conseguimos elaborar muito mais do que isso.

O caráter inesperado do Déjà vu contribui para seu poder perturbador. Ele não pode ser convocado à vontade, tampouco previsto com precisão. Surge e desaparece rapidamente, deixando apenas vestígios na memória e uma pergunta insistente que raramente encontra resposta imediata. Essa natureza efêmera dificulta não apenas sua investigação científica, mas também sua assimilação subjetiva. Não por acaso, várias são as teorias acerca do assunto, dependendo muito da visão de mundo do buscador que a está propondo. Aqui, apresentaremos algumas delas, de maneira que todos nós possamos investigar nas nossas próprias vidas aquilo que nos faz mais sentido. 

A busca por explicações e o olhar da ciência

Diante de um fenômeno tão intrigante, não é surpreendente que diversas áreas do conhecimento tenham tentado explicá-lo. A ciência moderna, especialmente por meio da neurociência e da psicologia cognitiva, oferece algumas hipóteses que buscam compreender o Déjà vu a partir do funcionamento do cérebro humano.

Pesquisas publicadas em periódicos científicos, como o The Quarterly Journal of Experimental Psychology, sugerem que o Déjà vu pode estar relacionado a um mecanismo de checagem da memória. Segundo essa perspectiva, o cérebro, ao processar uma nova experiência, realiza uma verificação automática para determinar se aquela informação já foi armazenada anteriormente. Em determinadas circunstâncias, essa checagem pode falhar, gerando a impressão de que o evento atual já foi vivido.

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Estudar o Déjà vu, no entanto, apresenta um desafio metodológico significativo. Como se trata de uma experiência espontânea e imprevisível, é difícil reproduzi-la em condições controladas de laboratório, o que por si só gera um grande problema aos investigadores. Para contornar essa dificuldade, pesquisadores têm recorrido a experimentos que buscam simular sensações semelhantes, ainda que não idênticas, ao fenômeno real. 

Em um desses estudos, por exemplo, voluntários foram expostos a listas de palavras semanticamente relacionadas, como termos associados ao sono. Posteriormente, eram questionados sobre palavras específicas que, embora não tivessem sido apresentadas diretamente, estavam fortemente ligadas ao contexto anterior. Muitos participantes relatavam a sensação de já terem ouvido aquelas palavras, mesmo quando isso não havia ocorrido. A análise da atividade cerebral revelou a ativação de áreas relacionadas à tomada de decisão, sugerindo um conflito interno entre a sensação de familiaridade e a ausência de uma memória concreta.

A partir dessas observações, alguns cientistas propõem que o Déjà vu seja resultado de uma falha momentânea nos sistemas de memória. Uma das hipóteses mais conhecidas sugere que informações recém-processadas podem ser encaminhadas diretamente para a memória de longo prazo, sem passar adequadamente pela memória de curto prazo. Esse “atalho” criaria a ilusão de que a experiência já pertence ao passado, quando, na verdade, acabou de ocorrer .Desse modo, o cérebro acaba atribuindo erroneamente uma sensação de antiguidade a uma experiência presente.

Como podemos perceber, embora essas teorias ofereçam um arcabouço plausível para compreender certos aspectos do Déjà vu, elas não conseguem explicar completamente a profundidade emocional e existencial que frequentemente acompanha o fenômeno. Afinal, não se trata apenas de uma sensação cognitiva de reconhecimento, mas de um sentimento intenso de familiaridade, por vezes acompanhado da impressão de antecipar o que acontecerá em seguida, quase como uma “premonição”.

É justamente nesse ponto que as explicações estritamente biológicas parecem encontrar seus limites. Se o Déjà vu fosse apenas uma falha mecânica da memória, como explicar a convicção íntima de conhecer profundamente uma pessoa recém-encontrada? Ou a sensação de pertencimento a um lugar jamais visitado? Ou ainda a estranha impressão de que os próximos acontecimentos já são, de algum modo, conhecidos?

Essas experiências sugerem que o fenômeno pode envolver dimensões mais profundas da psique humana, talvez ligadas à forma como construímos significado, identidade e continuidade ao longo da vida. O Déjà vu, nesse sentido, não seria apenas um erro do sistema, mas também um sinal de que nossa consciência opera em níveis mais complexos do que aqueles facilmente mensuráveis por instrumentos científicos. Essa constatação não invalida as contribuições da ciência, mas aponta para a necessidade de um olhar mais amplo, capaz de integrar diferentes perspectivas. Afinal, o ser humano não é apenas um organismo biológico, mas também um ser simbólico, histórico e espiritual, que atribui sentido às suas experiências.

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As respostas da Psicologia e da Filosofia para o Déjà vu

Não é por acaso que pensadores como Sigmund Freud e Carl Gustav Jung também se dedicaram a refletir sobre fenômenos semelhantes ao Déjà vu. Freud interpretava essas experiências como manifestações de desejos inconscientes ou fantasias reprimidas, que emergem de forma disfarçada na consciência. Para ele, o sentimento de familiaridade poderia estar ligado a conteúdos psíquicos antigos, recalcados, que retornam sob a forma de reconhecimento.

Jung, por sua vez, ampliou essa perspectiva ao introduzir o conceito de inconsciente coletivo e de sincronicidade. Segundo ele, certos acontecimentos carregados de significado não podem ser explicados apenas por relações de causa e efeito, mas também por conexões simbólicas que transcendem o tempo linear. O Déjà vu, nesse contexto, poderia ser interpretado como um momento de alinhamento entre o mundo interno e o externo, em que padrões arquetípicos emergem à consciência. Nesses casos, o Déjà vu é mais do que uma simples sensação: se torna um ponto de conexão entre aquilo que observamos e aquilo que não podemos tocar com nossos sentidos, mas perceber com nossa psique.

Entretanto, não somente a psicologia tentou desvendar esse mistério. A bem da verdade, diversos filósofos, desde a Antiguidade, também se debruçam sobre questões relacionadas à memória, ao tempo e à natureza da alma, elementos que o Déjà vu revela. Platão, em especial, ofereceu uma das reflexões mais profundas e duradouras sobre esse tema ao formular a teoria da reminiscência. Para ele, conhecer não era adquirir algo totalmente novo, mas recordar aquilo que a alma já havia contemplado em outro plano de existência. A aprendizagem, nesse sentido, seria um processo de reconhecimento interior, uma lenta e gradual recordação de verdades esquecidas no momento do nascimento.

Colocando em exemplos práticos, pensemos da seguinte maneira: em uma sala de aula com dez alunos há quem observará o conteúdo pela primeira vez e dirá “isso é fácil, eu já imaginava que seria assim”, enquanto outros alunos não conseguirão captar completamente o conteúdo e suas nuances, precisando rever esse assunto várias vezes. A cada nova experiência com esse assunto, ele se torna mais fácil e os alunos captam um pouco mais de suas nuances. Isso ocorre porque o assunto já está sendo visto mais de uma vez, o que faz com que os alunos tenham uma reminiscência daquela experiência e, portanto, se torna mais fácil o aprendizado.

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Segundo Platão, isso não ocorre apenas no ensino objetivo, mas em todas as experiências humanas que são captadas pela nossa alma. Dentro dessa perspectiva, a alma humana não nasce junto com o corpo que possuímos: ela é anterior, imortal e portadora de um saber acumulado ao longo de sua jornada por centenas de experiências em outros corpos. Ao encarnar, no entanto, esse conhecimento é obscurecido pelo contato com o mundo sensível, pelas exigências da matéria e pelas ilusões do cotidiano. Ainda assim, vestígios dessa sabedoria permanecem latentes, aguardando ocasiões propícias para emergir à consciência.

Curiosamente, tanto Platão quanto diversas tradições espirituais afirmam que o esquecimento é uma condição necessária para a experiência humana. Se lembrássemos plenamente de tudo o que já fomos ou vivemos, a vida perderia parte de seu sentido pedagógico, ficaríamos presos ao que já conhecemos e nunca buscaríamos aprender o novo. O esquecimento permite o espanto, a descoberta, o erro e o aprendizado. O Déjà vu, então, poderia ser visto como uma falha momentânea nesse véu do esquecimento e, por um breve instante, algo escapa, algo se insinua à consciência, apenas para desaparecer novamente.

Essa ideia não deve ser entendida de forma simplista ou literal, como se cada sensação de familiaridade correspondesse a um evento específico vivido em outra existência. O valor da teoria platônica está menos na descrição factual e mais na concepção de que há dimensões da experiência humana que transcendem a biografia individual e o tempo cronológico. O Déjà vu, então, não seria apenas uma curiosidade psicológica, mas um lembrete simbólico de que somos mais antigos do que imaginamos e mais profundos do que geralmente reconhecemos.

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Frente a isso, mais do que buscar uma explicação definitiva para o Déjà vu, talvez seja mais fecundo perguntar o que essa experiência desperta em nós. Talvez nunca de fato cheguemos a entender perfeitamente esse mecanismo de nossa psique; porém, ela nos convida a questionar quem somos, de onde viemos e qual é a natureza da realidade que habitamos, e a desconfiar de nossa percepção do tempo. Há algo de enigmático e profundo na experiência de existir, algo que escapa às categorias usuais do pensamento, e o ser humano, direta ou indiretamente, percebe esse incômodo. É daí que nascem nossas questões existenciais e que nos faz buscar por respostas.

Torna-se claro que o ser humano é muito mais do que uma máquina biológica e precisa ser compreendido de maneira integral, um ser com alma imortal, com memória, necessidade de experiências, sujeito às leis da vida, com valores, virtudes e sabedoria. Tudo isso nos dá uma chance maior de nos vermos como parte da vida e não como algo à parte dela. Também nos faz enxergar a possibilidade, inclusive, de atuarmos de maneira a somar com todo o plano da natureza. Ao final, o Déjà vu permanece como uma pergunta aberta, mais do que como uma resposta. Ele nos confronta com os limites do conhecimento, com a profundidade da consciência e com o mistério do tempo.

Seja interpretado como um fenômeno neurológico, psicológico ou espiritual, ele aponta para uma questão importante no mundo atual e que, por vezes, esquecemos: o ser humano jamais poderá ser limitado aos seus aspectos biológicos. Mesmo que saibamos explicar o aspecto objetivo dos fenômenos psíquicos como o Déjà vu, talvez sua causa continue sendo um mistério, pois somos seres atravessados pela memória, mesmo quando não sabemos exatamente do que nos lembramos. 

Visto isso, talvez o mais importante não seja explicar o Déjà vu, mas permitir que ele cumpra sua função simbólica de nos fazer refletir sobre o tempo, sobre nossas próprias experiências e de como lidamos com os mistérios escondidos dentro de nós. Ele nos lembra de que não somos apenas corpos em movimento, mas principalmente consciências em busca de sentido que desejam realizar-se. Ele também nos lembra  que carregamos em nós marcas invisíveis de tudo o que fomos, somos e, talvez, ainda seremos.

Nesse sentido, não se trata de simplesmente deixar de lado esse fenômeno quando ocorrer, ou mesmo achar que é somente uma “falha” em nosso cérebro. Melhor refletir que, enquanto seres humanos, talvez devêssemos lembrar mais vezes de momentos em que fomos bondosos, justos, gentis e generosos, qualidades que são inerentes a nossa natureza, pois somente o ser humano pode conscientemente viver tais virtudes. 

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Ilustração do artists Escher

Esses não são valores abstratos, mas sementes lançadas na memória mais profunda do ser. Quando o tempo deste corpo passar, serão essas experiências que permanecerão, não como recordações vagas, mas como a própria substância daquilo que somos. E talvez, em algum instante inesperado, ao sentir novamente a estranha familiaridade do Déjà vu, sejamos lembrados, ainda que por um segundo, de que nunca estivemos realmente separados daquilo que buscamos compreender.

Platão já nos ensinava sobre a memória da alma, a reminiscência. Segundo ele, a alma humana é muito velha e encarna no corpo material para adquirir experiências, mas depois da vida, precisa se purificar do mundo material, ou seja, retirar tudo aquilo que ela não é. Em alguns diálogos, Platão conta-nos também que educar, diferente do que achamos hoje em dia, não é encher um copo vazio, mas sim eduzir, ou seja, fazer com que o indivíduo expresse aquilo que já existe em sua alma. Seria como trazer para fora sua própria reminiscência, seu verdadeiro “Ser”, seu “gênio” (A República).

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Ilustração do artista Gonçalves

Seguindo as ideias de Platão, e de tantas outras tradições da história da humanidade que nos ensinam sobre os ciclos da vida, de nascimento e morte, das necessidades de experiências da alma, da imortalidade do nosso Ser, percebemos que o Déjà Vu então pode ser uma recordação de algum lugar, de alguém ou de alguma situação que nossa alma já teve contato em outras encarnações e que a marcou profundamente. Isto nos explicaria o estranhamento, e ao mesmo tempo, a sensação de intimidade. Isto nos traduz como Mozart, por exemplo, aos 5 anos de idade já era um gênio da música, e também porque alguns de nós nascem tão sábios e experientes em relação a determinados aspectos da vida.

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