Quando a Comida Vira Poesia: A Arte de Cozinhar com o Coração

Sabia que tem muita gente se redescobrindo na cozinha? Nos últimos anos, cozinhar deixou de ser somente uma obrigação e passou a ser um verdadeiro hobby para muitas pessoas. Se por um lado atribui-se esse desejo aos novos programas culinários na TV, há quem diga que a arte de cozinhar tem atraído tantas pessoas devido à sua mágica de transformar alimentos em momentos especiais. Cozinhar, sob essa perspectiva, não é apenas preparar algo para ser consumido, mas também viver plenamente cada etapa: desde o toque dos ingredientes, o som do alimento ao encontrar o calor, o aroma que se espalha lentamente pelo ambiente etc. O prazer não está apenas no prato pronto, mas no caminho até ele.

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Via de regra, uma pessoa adulta, mesmo que não seja tão prendada nessa nobre arte, sabe fazer o mínimo para se alimentar. Ainda que seja uma comida simples, como um pão recheado com queijo, todos nós já experienciamos preparar um alimento. Porém, existe um abismo entre simplesmente cozinhar e se tornar uma arte, algo que encanta e nos faz aprender sobre as leis da vida, afinal, isso também faz parte da existência. Será que somos capazes de enxergar nossas refeições para além do simples ato de comer?

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A arte de cozinhar é algo humano, demasiadamente humano

Há algo que nos distingue radicalmente dos animais: a capacidade de imprimir nossa essência naquilo que fazemos. Não agimos apenas por instinto ou necessidade imediata, mesmo que estes sejam inatos em nós. Somos capazes de agir conscientemente, ou seja, sem estar refém do simples instinto, e isso, por si só, nos faz agir de maneira completamente diferente frente ao mundo, pois somos capazes de impregnar nossas ações de intenções, desejos e virtudes, isso é o que chamamos de Arte. Quando cozinhamos, algo do nosso interior se expressa no alimento e, via de regra, esse processo não é totalmente racional, muito menos calculado. 

Uma comida preparada com afeto carrega harmonia. Assim como uma música composta com sensibilidade ou um poema escrito com verdade, o prato se torna um veículo de expressão do espírito humano. Não por acaso, quando comemos um prato feito por alguém que amamos percebemos essa diferença. Na casa dos nossos avós, por exemplo, o almoço era uma simples refeição? Ou hoje, quando lembramos do gosto da comida, percebemos que nenhum chef de cozinha faria um feijão tão bom quanto o da nossa avó? 

Não se trata, portanto, de aspectos técnicos somente, mas principalmente de uma relação humana dentro do processo de cozinhar. Não lidamos apenas com ingredientes, mas também com estados interiores, e o que sentimos enquanto cozinhamos se infiltra silenciosamente no resultado final. Assim, percebemos que, no fundo, cozinhar é muito mais sobre o rito e muito menos sobre combinações. Sobre essa ideia, o grande filósofo chinês Confúcio afirmava que a vida plena se encontra na cerimônia, na ação consciente carregada de sentido; logo, toda atitude destituída de ritual tende a se tornar mecânica e quase animalesca. 

É por isso que jamais deveríamos fazer algo – e nesse caso, cozinhar – de qualquer maneira, sem percebermos o que estamos de fato realizando, pois isso seria uma marca de nossa inconsciência e automatismo. Nesse sentido, cozinhar não é um intervalo entre atividades mais importantes, como o trabalho ou o lazer, mas uma experiência plena em si mesma e que deveríamos vivenciar de tal modo que nos sentíssemos tão preenchidos na alma quanto uma leitura ou outro tipo de atividade que nos engrandece.

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A pressa é inimiga da cozinha

A industrialização do alimento atendeu, sem dúvida, às demandas de um cotidiano acelerado. Vivemos em um ritmo frenético, e naturalmente isso foi transportado para a maneira como lidamos com nossas refeições. Se nas gerações anteriores aproveitava-se o momento para pequenos ritos, desde rezar e agradecer aos alimentos para os mais religiosos, ou mesmo o ato de reunir a família em torno da mesa para almoçar ou jantar, isso é algo impensável nos dias atuais. Vivemos na ditadura das comidas rápidas, produzidas em série e que resolvem a fome de quem precisa trabalhar, estudar, cuidar dos filhos e pagar contas. 

Entretanto, há uma diferença abissal entre a comida feita em uma linha de produção e aquela preparada por alguém que conhece o tempo do fogo e o ponto do tempero. A comida da avó, da mãe ou daquela antiga cozinheira da família carregam algo que nenhuma tecnologia consegue reproduzir. Mesmo sem recursos sofisticados, cada uma delas desperta memórias, emoções e uma sensação de acolhimento que ultrapassa o sabor. Esse “algo” indefinível é a presença humana.

Esse tipo de alimento nutre mais do que o corpo, afinal, nasce de um gesto de atenção e cuidado e nos coloca em outra dimensão: a do afeto. Ao nos afastarmos desse aspecto simbólico, perdemos não apenas qualidade alimentar, mas também uma forma de vínculo com a vida. Não é à toa que alguns restaurantes passaram a investir no que chama-se “cozinha com afeto”, tentando resgatar no mundo moderno esse tipo de carinho na arte de cozinhar.

Nesse sentido, a busca deve ser por resgatar a cozinha como espaço humano, que não deve estar submetida aos caprichos do mundo externo. É na cozinha que deveríamos ter um tempo para respirar, desafogar-se das obrigações do trabalho e cultivar conscientemente esse momento de respiro.

Quando passamos a enxergar o ato de cozinhar por esse ângulo, a cozinha se revela como um lugar especial. Não mais como um cômodo da casa, mas como um espaço simbólico onde entramos em contato com nossa psique de maneira muito objetiva, pois, a maneira como preparamos a refeição revela como estamos nesse aspecto interno. No corre-corre diário, visitamos muitos lugares externos, mas raramente nos conduzimos a esse espaço interior; logo, pode-se fazer da necessidade de cozinhar um excelente hábito para refletir e encontrar um pouco de paz na mente e no coração.

Junto a esses benefícios, uma atividade prática é capaz de nos revelar grandes virtudes, como a temperança. A palavra por si só nos lembra “tempero”, algo essencial ao prepararmos uma refeição. Temperança é, em síntese, a capacidade de encontrar a medida certa para cada elemento da nossa vida. Ao sabermos distribuir nosso tempo e energia de maneira justa, por exemplo, estamos exercendo essa virtude. Do mesmo modo, na cozinha essa é uma das virtudes mais necessárias, visto que cada prato exige de nós conhecer a medida certa para fazê-lo com perfeição.

A temperança nos ensina o equilíbrio entre o excesso e a falta, entre o impulso e a consciência. Assim, cozinhar com temperança é um exercício de autocontrole e sensibilidade. É saber parar, provar, ajustar e reconhecer erros e acertos. Essa virtude, quando empregada com sabedoria, nos faz compreender que o prazer verdadeiro não está no excesso, mas na justa proporção, seja na cozinha ou em qualquer tipo de relação humana. 

Logo, ela não educa apenas o nosso paladar e olfato para reconhecer o que está bom: podemos estendê-la para a nossa vida em geral e perceber quando passamos do ponto em alguma relação ou atitude. Ver, por esse ângulo, o ato de cozinhar nos leva à descoberta da cozinha como um lugar especial, em que entramos em contato com o que há de mais profundo em nós. As tradições costumam falar de um lugar que todos temos dentro de nós, um lugar seguro, onde mora o sublime. Em meio a tantas atividades, responsabilidades, obrigações, preocupações e stress, raramente podemos desfrutar de um momento em que encontramos esse aspecto sublime. Quem sabe não possamos fazê-lo enquanto preparamos uma refeição?

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Encontrando consigo mesmo ao cozinhar

Como podemos perceber, a arte de cozinhar não pode ser vista como algo mecânico, simplesmente feito para saciar nossa fome. Ao refinar nossa técnica, também podemos alimentar em nós algo muito superior ao alimento físico: podemos nos alimentar de ideias, percepções e insights que, em geral, talvez nunca teríamos se não estivéssemos caminhando de maneira consciente. 

Para alguns, isso pode parecer um exagero, porém, o que fazemos no plano físico repercute muito nos planos mais sutis que existem dentro de nós; logo, ao realizar uma boa refeição, podemos também nos acalmar e ter uma percepção mais profunda de nosso ser. Para deixar em exemplos, pensemos quando realizamos uma faxina em nossa casa: ao terminar, qual a sensação que cultivamos? Podemos enxergar a ordem, a beleza, a higiene e tantas outras ideias ao vermos que limpamos, guardamos e deixamos nossa casa arrumada. Percebe-se, portanto, que o mundo físico e sua ação geram em nós uma percepção interna dessas ideias.

O mesmo ocorre ao cozinhar. Há uma pedagogia especial quando realmente nos dedicamos a essa arte. Do ponto de vista objetivo, ela educa os sentidos de maneira gradual e profunda. O olfato aprende a reconhecer aromas sutis, o paladar se refina, a visão se torna mais atenta às cores e texturas, o tato desenvolve precisão e delicadeza. Entretanto, o maior ganho está no que desenvolvemos internamente. Uma pessoa que aprende a cozinhar com atenção tende a perceber melhor os detalhes da vida, desenvolve paciência, capacidade de espera e tolerância à frustração, pois nem sempre o prato sai como o esperado.

Aprendemos também a humildade, ao reconhecer que o erro faz parte do processo e que cada tentativa é um aprendizado. Cozinhar ensina que a perfeição não está no controle absoluto, mas na abertura para o ajuste constante. Essa educação da sensibilidade é, como já percebemos, profundamente humana. Animais se alimentam, mas não cozinham. O ato de cozinhar exige abstração, memória, imaginação e intenção, por isso que vai muito além de técnica ou mesmo seguir uma receita. Ele envolve antecipar o resultado, lembrar experiências passadas, criar combinações novas e, sobretudo, atribuir valor simbólico ao alimento. É nesse ponto que o ato de cozinhar se revela como uma expressão cultural e espiritual, não apenas funcional.

Visto isso, podemos entender que a arte de cozinhar é, em última análise, um ato de amor, porque é a inclinação de um espírito humano para servir. É evidente que podemos cozinhar apenas para nós mesmos, mas a grande mágica está justamente em preparar uma bela refeição para as pessoas que amamos. E mesmo que se cozinhe solitariamente, ou seja, apenas para si, a arte de cozinhar nesse caso é um ato de preparar o alimento para servir ao seu próprio corpo, recarregar suas energias e lhe dar prazer, e, por consequência, lhe permitir um bom funcionamento da mente. 

Quando cozinhar se torna um caminho para o autoconhecimento

Como podemos perceber, cozinhar jamais foi apenas uma atividade prática destinada a saciar a fome. O ato de cozinhar, quando vivido com consciência, revela-se como um dos gestos mais completos da experiência humana, pois ele reúne corpo, mente e espírito em uma mesma ação, simples na aparência, mas profunda em seus efeitos. Frente a isso, é importante entender que a arte de cozinhar é, em resumo, saber  tocar a matéria com intenção para transformar o bruto em algo que nutre, aquece e acolhe. Tal qual um ourives, é preciso lapidar o alimento e torná-lo o melhor possível, tanto em sabor quanto em beleza. 

Num tempo em que tudo parece pedir rapidez, eficiência e resultados imediatos, viver a arte de cozinhar é saber criar momentos de pausa e tranquilidade, em que deve-se respirar e sair um pouco do ritmo alucinado em que vivemos. Ela nos ensina o valor da espera, da medida e da atenção, algo raro no nosso cotidiano e que, infelizmente, estamos perdendo a passos largos. É por isso que cozinhar também nos recorda da nossa humanidade, visto ser algo que somente o  ser humano é capaz de fazer. Através da cozinha de uma civilização, podemos conhecer seus hábitos, cultura, história e nos conectar através dessas diferentes formas de se alimentar. É um ato que atravessa culturas, épocas e classes sociais. 

Quando o cozinhar se torna consciente, ele deixa de ser apenas um meio e passa a ser um fim em si mesmo. Não se cozinha apenas para chegar à refeição, mas também para viver plenamente o processo e nos fazer perceber que, por vezes, precisamos desse momento de espera. É curioso que o ato de cozinhar, em geral, só parece ser compensatório no resultado final, que é o prazer do alimento. Entretanto, quando realmente conseguimos nos aprofundar nessa arte, o verdadeiro prazer passa a ser o processo; a calma em temperar os alimentos e na espera do cozimento; e, enfim, os momentos que levam até o resultado e não ele em si.

O prazer não está só no sabor final, mas no aroma que se espalha, no som do alimento no fogo, na música que acompanha o gesto, na calma que se instala pouco a pouco, nas reflexões que podemos ter, nas companhias que temos e, evidentemente, no ato de sentar a mesa e apreciar uma boa refeição. Cozinhar, assim, torna-se um exercício de presença, um modo concreto de habitar o instante e reconciliar-se com o próprio ritmo interior.

Cozinhar é uma arte, homem fazendo comida.

Talvez seja esse o maior ensinamento que a cozinha pode oferecer: o de que a beleza não está reservada aos grandes feitos, mas se esconde nos gestos simples. É aí que apreciamos muito mais preparar uma comida para alguém que amamos do que levá-lo a um restaurante chique, que naturalmente também tem seu valor, mas não pode ser comparado a sensação de construir uma refeição com afeto.

É aí que a comida vira poesia, e não é porque se tornou sofisticada ou porque tem o melhor dos sabores, mas porque foi atravessada pelo aspecto humano e se revela, para nós mesmos e para o outro. Enquanto houver pessoas dispostas a cozinhar assim, com o coração, haverá ainda lugares no mundo onde o sentido, a delicadeza e o amor encontram morada.

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