Mais uma vez, nos aproximamos do fim do ano e, junto a ele, uma das Celebrações mais importantes do nosso calendário: o Natal. De acordo com a Tradição Cristã, o dia 25 de dezembro representa o nascimento do menino Jesus, o filho de Deus. Esse fato por si só explica o peso que ele tem em nossas vidas, afinal, em nosso país, mais de 70% da população segue a doutrina de Cristo. Entretanto, o Natal tem um significado ainda mais simbólico e foi representado, à sua maneira, por diversas civilizações, ao longo da história. A própria data, como bem sabemos, não foi fruto do mero acaso. Em verdade, o Natal e as demais Celebrações que falaremos mais adiante têm como ponto em comum o Solstício de Inverno, um momento do ano em que temos o dia mais curto e, consequentemente, a noite mais longa. 

No mundo contemporâneo, em que usufruímos de energia elétrica para manter nossas ruas e casas bem iluminadas, passar pela noite mais longa do ano não nos parece um problema, não é mesmo? Porém, viver dias curtos na Antiguidade era um sinal dos Deuses de que a vida estava se recolhendo e dando lugar às trevas. De maneira prática, as pessoas fechavam suas portas cedo com medo dos perigos da noite, tornando esse momento mais íntimo, apenas com seus familiares mais próximos. O frio, natural desta época do ano, no Hemisfério Norte, obrigava as pessoas a acenderem um fogo em suas casas, seja na lareira ou mesmo em pequenas velas, como forma de se manterem aquecidas. Isso lhe parece familiar? É muito provável que sim, uma vez que continuamos a seguir a Tradição Natalina de reunir nossos entes queridos em volta de uma mesa de jantar e, em alguns casos, nos proteger do frio, nos aproximando do fogo. 

Como sabemos, os Solstícios e Equinócios são, de maneira objetiva, fenômenos astronômicos, causados pelo movimento da Terra em relação ao Sol. Porém, além desses aspectos astronômicos, há ainda um caráter Simbólico, no qual diversas Civilizações se debruçaram em representar em seus Mitos. As mais distintas Mitologias são provas vivas da importância desta data. Sendo este, portanto, um momento importante, não apenas para Cristãos, mas para a maioria das grandes Religiões que já foram cultuadas por mulheres e homens no passado. 

Considerando tais questões, vamos conhecer, um pouco mais, a saga Mitológica do Solstício de Inverno. Comecemos pelo Antigo Egito. No Solstício de Inverno, os Egípcios comemoravam a morte de Osíris, a divindade responsável pelo outro mundo. Mas, qual a necessidade de celebrar algo devastador como a morte de um Deus? Para entendermos isso, é fundamental observarmos e fazermos relações Simbólicas entre o fenômeno astronômico e o Mito. Dessa maneira, vamos tentar entender essa Celebração a partir das Ideias que ela carrega.

Osíris, segundo o Mito Egípcio, foi o primeiro Rei do Egito. Sendo um governante Bondoso e Justo, ele teria ensinado seus súditos a plantarem e a se sustentarem, em meio ao desafiador deserto africano. Porém, o irmão de Osíris, Seth, tomado pelo desejo de poder, faz um plano para destronar seu irmão. Após aprisioná-lo em um caixão, Seth o despedaçou em 14 pedaços, dando fim à vida do Rei. Osíris começou, a partir desse evento, a vagar pelos caminhos desse outro mundo chamado “duat”, o mundo dos mortos. De forma resumida, podemos enxergar que a morte do Deus-Faraó representa também a morte da matéria, que é transitória, para uma outra realidade a qual chamamos de “Vida Espiritual”. Assim, enquanto no Egito, celebra-se a morte, no Cristianismo, celebra-se a vida, mas no fundo, ambos estão buscando a mesma ideia: o aflorar da Vida Espiritual. Nesse sentido, o que enxergamos são apenas as formas que cada Civilização encontrou para homenagear esse momento da Natureza. 

Fazendo um paralelo com o Inverno, estação do ano em que praticamente toda a vida natural “morre” até a chegada da Primavera, a morte de Osíris representa o início de um novo Ciclo. Em diversas tradições, inclusive, veremos o Inverno relacionado diretamente com o aspecto da morte, mas que, a partir dela, faz-se nascer a Vida Espiritual.

Saindo do Egito e subindo o mar Mediterrâneo, podemos chegar à Roma. Lá, o Solstício de Inverno era vivido de uma maneira um pouco peculiar. Primeiramente, comemorava-se o resultado das colheitas, uma vez que o Inverno estava se aproximando. Era o tempo de colher e guardar os recursos. Assim, através de um Festival chamado “Saturnália”, os Romanos estocavam comida suficiente para passarem por esse período de maior escuridão. Além disso, uma das Celebrações que marcam o Solstício de Inverno é a Cerimônia do “Sol Invictus”. Nela, os Sacerdotes mostravam como o Sol, mesmo em seu ponto mais baixo – no dia mais curto do ano, no caso – ainda era capaz de derrotar qualquer escuridão. Por mais densa que seja a noite, o dia, afinal, sempre retorna e volta a iluminar nossas vidas. 

Essa Celebração era uma das mais importantes no calendário Romano, pois simbolizava o fogo interno que devemos sempre manter aceso. Essa chama interior para os Romanos seriam as nossas convicções, aquilo que, verdadeiramente, acreditamos, que nos dá a força necessária para superar os problemas mais difíceis, e que garante vencermos nossas debilidades e crises, tal qual um Sol que nunca deixa de brilhar e que nunca é derrotado pela escuridão. Fazendo um paralelo pelo que conhecemos do Natal, a Tradição no Hemisfério Norte de manter-se aquecido e próximo da sua família é, no mundo objetivo, uma maneira de simbolizar esse momento da Natureza, pois nosso elo mais forte e inquebrantável é, na grande maioria das vezes, nossos familiares. Eles que nos ajudaram a crescer, nos formaram, estiveram em nossos piores e melhores momentos. Por isso, na noite mais escura do ano, nos momentos mais difíceis, é nesse pequeno núcleo que procuramos força e abrigo. 

Ainda em Roma, uma divindade adotada do Império Persa, que outrora fora cultuada na Índia Antiga, também ganhava destaque nesse período do ano: Mitra. Sendo cultuado pelas Legiões de Roma e, em alguns casos, até pelo Imperador, a adoração por essa divindade está ligada não apenas pelos seus atributos de Guerreiro, uma marca indelével dos Antigos Romanos, mas principalmente por estar relacionada diretamente com os Mistérios. Dessa forma, nesse momento de introspecção e de recolhimento, como citamos, mostra-se importante conhecermos mais a nós mesmos. Assim, revelando o Mistério que guardamos dentro de nós, poderemos compreender um pouco melhor os Mistérios e Leis que regem a qualquer ser da Natureza.

Já nas poleis Gregas, o Solstício de Inverno era comemorado a partir das festas em adoração ao Deus Dionísio. Segundo a Mitologia, Dionísio foi a divindade responsável por criar o vinho e as festas, sendo seus cultos cheios de arte das mais variadas: Música, Teatro e Poesia faziam parte do repertório apresentado nessas Celebrações. Dionísio, por mais que seja conhecido por seu lado mais “vulgar”, em alguns Mitos, ele era representado como um Ser que consegue ensinar aos Seres Humanos o caminho do Mistério. A sua face mais conhecida, porém, é um estereótipo que até hoje ainda não foi bem entendido. De qualquer modo, é interessante perceber mais um atributo que enxergamos no Natal: a festa. Claro, não estamos falando de uma grande festa, mas o Natal está, em geral, recheado de músicas “natalinas” e que são cantadas com frequência, assim como a alegria contagiante que encontramos nas Festividades. Tudo isso compõe, ao seu modo, o clima natalino. 

Dessa forma, após observarmos tantos Mitos e Celebrações de distintas Civilizações, parece-nos evidente que essa época do ano já se apresentava como especial, mesmo antes da chegada de Jesus a este mundo. O que mais nos impressiona, porém, é a grande diversidade de Mitos que, em diferentes Civilizações, afastadas no tempo e no espaço, ainda assim conseguem reproduzir Ideias tão similares. O que podemos aferir é que todas essas Culturas, ao seu modo, vislumbraram uma mesma Verdade presente na Natureza, e por observarem o mesmo ponto, viram Ideias muito parecidas e, cada qual ao seu modo, a colocou em um Mito.

Sobre isso, é interessante notar o papel da Astronomia no desenvolvimento dessas ideias tão fundamentais aos Seres Humanos. Como sabemos, os fenômenos com os corpos celestes demarcam nossa maneira de perceber a vida. Por exemplo: dia e noite são, a rigor, determinados pelo nosso movimento de rotação, o que afeta a posição em que o Sol nos ilumina. De igual modo podemos citar os anos, a navegação a partir das constelações e vários usos práticos e outros Simbólicos que a Astronomia nos dá. Desse modo, a movimentação dos astros não é apenas um fenômeno físico, pois, ao observarmos essas alterações na Natureza, também percebemos como elas nos afetam. Adaptamo-nos às suas Leis e aprendemos com elas para, no fim, encontrarmos um ponto de Harmonia entre a Vida Humana e o Cosmos. 

Sendo assim, para além de uma simples data no calendário, o Solstício de Inverno representa muito mais do que o dia mais curto do ano. Simbolicamente o enxergamos como o momento de ascensão Espiritual do Ser Humano. É um momento mágico, em que nossa melhor parte passa a ser mais evidente. As grandes Civilizações do passado perceberam isso e sacralizaram esse fenômeno, atribuindo-lhes Mitos, Deuses e Sentido. Entendendo por esse ponto de vista, é fundamental que não achemos que as diferentes Culturas que apresentamos aqui são rivais, muito menos detentoras de uma Verdade única. Elas nos apresentam Ideias e estas, a depender dos seus recursos e contexto histórico, podem nos impulsionar em direção à nossa Evolução ou não.
Assim, considerando todos os Mitos que comentamos, percebemos que eles participam de uma mesma Verdade, apenas a traduziram de modo distinto. Que saibamos, portanto, enxergar essa Unidade na vida que hoje vivemos como o Natal, mas que, em outras épocas, já foram Festas Dionisíacas, culto ao “Sol Invictus” e tantas outras maneiras de celebrar uma mesma Ideia. Para honrar esta antiga Tradição, que vem vencendo o tempo e atravessando as eras da Humanidade, devemos nos comprometer a fazer brotar a semente da Vida Espiritual, esta que se encontra escondida em nosso Ser e aguarda nosso Inverno passar para germinar em mais uma Primavera da nossa Existência. Reguemos essa semente com Bondade, Amor e Justiça e, assim como ensinou Cristo, aprendamos a amar os demais como ele nos amou.

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