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Uma antiga frase diz que a História é apenas o resultado objetivo de uma ideia. Assim, o que observamos no tempo é fruto de uma ideia que nasceu na mente de uma ou mais pessoas. Se observarmos essa perspectiva a fundo, poderemos entender que não apenas os fatos históricos, as guerras e revoluções, por exemplo, nasceram primeiro na mente dos seus idealizadores antes de se concretizarem no nosso mundo, mas também nossas ações comuns do dia a dia também seguem essa regra. Antes de vivermos o cotidiano, pensamos no que vamos fazer, logo, o que plasmamos no mundo é apenas uma sombra imperfeita do que nasceu em nossa mente.

Visto isso, não é exagero pensar que a frase “as ideias movem o mundo” é real. Mais do que isso, compreendendo as ideias de um tempo histórico, poderemos entender as motivações e as causas que levaram os homens e mulheres do passado a tomarem tais atitudes. Como podemos ver, é impossível pensar a História sem levarmos em conta as ideias que circulavam ou que estavam sendo discutidas naquele momento. É aqui que entra a importância da filosofia dentro não apenas da História, mas também na própria compreensão e formas de pensar ao longo da existência humana.

Cada período histórico é produto das ideias do seu tempo e nessa relação ideia/História a filosofia cumpre um papel essencial, afinal, o filósofo é aquele que busca a sabedoria, ou seja, as ideias que vão fundamentar sua existência. Assim, à medida que as sociedades vão se formando e se transformando, algumas perspectivas dentro da busca pela sabedoria também ganham novos contornos. 

Visto isso, precisamos saber: Qual o seu filósofo predileto? Os mais antigos: Sócrates, Platão, Aristóteles? Ou os mais atuais: Nietzsche, Sartre, Foucault, Bauman? Dentro da história da filosofia, as possibilidades de pensadores estão na casa dos milhares, mas será que sabemos mesmo a diferença entre eles? O que eles pensaram e escreveram faz alguma diferença para a realidade humana, a nível econômico, político e social? Sabemos que em sua época tais ideias foram revolucionárias, mas será que essas mesmas ideias ainda hoje podem nos modificar? As guerras, as colonizações, os impérios religiosos, as artes, as ciências não são movimentos autônomos, independentes do que pensam ou deixam de pensar os filósofos? 

A resposta para essa pergunta é “não”. Não são autônomos, tudo o que acontece a nível de humanidade é um efeito do jeito como os humanos concebem o mundo, ou seja, as ideias são os motores por trás da História. A nossa interpretação sobre o que é a Verdade, a Liberdade ou a Justiça, por exemplo, é determinante para definir o perfil moral de nossa sociedade e, por conseguinte, afeta a política, a economia, as formas religiosas, as artes e toda a gama de relações das pessoas entre si.

Do alto do Século XXI, nós podemos ter uma visão privilegiada da História, porque podemos enxergar algumas curvas na trajetória da humanidade. Do Século V para cá, vimos o desabamento da era antiga, seguido por mil anos de Idade Média, e então um processo de renascimento, em que uma civilização parece acordar de um sono e se erguer rapidamente com revoluções científica, capitalista, industrial e financeira. Se olharmos detidamente para esses movimentos, tentando captar o motor que os move, perceberemos que por trás desses misteriosos acontecimentos da História estão as ideias. 

Os ciclos históricos podem ser entendidos pelas ideias que perpassam o tempo. Se na Grécia Antiga as ideias centrais eram a busca pelo ideal humano – advinda do uso da razão, da compreensão da natureza humana – e a busca pela transcendência dos aspectos existenciais, no mundo atual percebemos que impera a ideia de que não há nada para além do que podemos experienciar. O existencialismo, corrente filosófica muito em voga no mundo atual, tem como base a noção de que se há algo para além da existência, não podemos alcançá-la, logo, ela não nos serve. Assim, de nada adianta buscar o metafísico, a essência da natureza, pois não temos meios de tocá-la. Assim, o mundo se converte em uma verdadeira busca pelo prazer e fuga da dor, aspectos com que convivemos cotidianamente. 

A mudança das ideias faz a roda da História girar, e assim seguimos ao longo dos séculos e dos milênios. Além disso, também podemos apontar que o modo como o ser humano vê o mundo move a história da humanidade. Por exemplo, o pensamento de Marx, mesmo depois de sua morte, dá origem a um movimento político ideológico chamado marxismo e que vai levar à queda do czarismo na Rússia, e, posteriormente, ao surgimento da União Soviética, o regime de Stalin, etc. E isso vai gerar uma espécie de Guerra Fria que se transmuta de formas em formas até hoje, polarizando as principais democracias do mundo, influenciando o jeito como esses países lidam com o seu orçamento público e, por conseguinte, afetando diretamente a vida individual de cada cidadão desses lugares. Em paralelo, as ideias de Adam Smith a respeito do liberalismo são motores invisíveis que movem o jeito como as nações – antigamente esse jeito era chamado “polo capitalista” –  lidam até hoje com os mercados, com o dinheiro, com o enriquecimento, com a distribuição de recursos no planeta, etc. 

Não tenha dúvida de que são as ideias movimentadas pela mente humana que determinam a decadência das civilizações ou a elevação até os seus apogeus. O que degrada a alma humana ou a eleva às alturas dos chamados deuses, pelas mitologias, são as ideias. O motor invisível por trás da História tem a ver com o sentido ou direção para onde caminham os pensamentos e emoções das pessoas.

Ora, se a direção do pensamento humano é tão determinante do quanto as civilizações se aproximam ou se afastam dos altos Ideais, por que então não conduzimos o pensar humano por uma direção que eleve toda a humanidade aos cumes mais altos da moral, da ética e da evolução moral? 

Nessa pergunta está a grande diferença entre filosofia antiga e filosofia contemporânea. A preocupação de filósofos como Sócrates, Platão, Aristóteles, Confúcio e os sábios do Antigo Egito é, sobretudo, a busca da Verdade, das ideias perfeitas de justiça, de beleza e de bondade. Aristóteles, por exemplo, estava muito preocupado em entender o que era a felicidade humana, e por isso percebeu o nexo que existe entre felicidade e virtudes humanas. Ele percebe que o único jeito do ser humano ser feliz é sendo virtuoso, ou seja praticando o bem, a generosidade, o amor, etc. Essa preocupação em ordenar o pensamento em busca de um ideal que transcende as questões materiais é uma constante em toda a filosofia antiga. Vamos encontrar esse movimento na República de Platão, em que se constrói um sonho da humanidade perfeita. Vamos encontrar isso também na escola de pensamento estoicista, que se preocupa com a Arte de Viver, aconselhando que o tempo da vida humana deve ser aproveitado com sabedoria, sem desperdícios. E essas mesmas ideias encontramos também no confucionismo, na escola de Plotino e em muitas outras correntes antigas.

Já a filosofia contemporânea rompe com esse compromisso de buscar uma direção para o pensamento humano. Já não se considera mais um sentido transcendente para a existência. Sartre, por exemplo, opta por uma busca que desconsidera a existência de uma Essência Humana, ou de uma Inteligência que planeja a existência. Para ele não existe uma alma ou mesmo um propósito para a vida, então o pensamento fixa-se apenas na liberdade associada à constante angústia e desamparo de uma vida sem sentido. Marx e Adam Smith estão preocupados com a produção humana, são os pensadores da materialidade, desconectados de valores metafísicos, como se a vida humana se constituísse apenas de condições objetivas e materiais.

A filosofia antiga, diferente da contemporânea, olha para o céu estrelado e intui uma inteligência cósmica regente desses fenômenos tão matematicamente harmonizados, e fazendo isso, tenta encontrar a expressão desse mistério dentro do próprio ser humano. Esse jeito de pensar sobre si mesmo a partir de chaves que nos consideram como seres que carregam dentro de si elementos animalescos e angelicais, fundidos em uma única constituição misteriosa, se traduz na realidade social. A História nos mostra que, quando esses pensamentos conduzem as ações humanas no campo da política, da economia, da ciência e da religião, as civilizações alcançam seus mais elevados níveis éticos.

A degeneração das condições morais da humanidade nos dias atuais é nítida e indiscutível. Vivemos uma era de muita corrupção em todos os campos, na política, nos esportes, nas religiões, no mercado financeiro. É como se a natureza humana estivesse apodrecendo a olhos vistos. A sofisticação do crime organizado – seja por facções criminosas, empresas ou partidos políticos – as inovações de modalidades criminosas no mundo cibernético, a ambição voraz das grandes potências mundiais, todo esse desabamento de nossa civilização, não tenha dúvida, são movidos pelo jeito como fazemos filosofia. O jeito como pensamos, ou seja, os princípios que conduzem nossas ideias têm nos levado a um desmoronamento de valores, a uma cegueira coletiva em relação à História e aos mistérios do Universo, de Deus, da vida e do ser humano. Por este motivo, muitos pensadores já preveem uma Nova Idade Média, pois as ideias que movem os homens nos dias de hoje são as mesmas que levaram a sociedade ocidental a mil anos de ignorância, violência, fanatismo e pandemias.

As ideias, porém, não morrem. Assim como outrora foi possível resgatar o mundo clássico e viver a filosofia e a busca pela sabedoria de forma consciente e transcendental, hoje também podemos fazer isso. Urge a necessidade de um Novo Renascimento. Precisamos voltar à filosofia antiga, reler as obras clássicas, atentar para as grandes tradições da humanidade, não com o propósito de criticar o que há de ruim nelas, mas sim para encontrar nelas o impulso que irá nos tirar desse abismo em que nos encontramos. Ler os clássicos, se conectando conscientemente ao mesmo espírito com que eles olhavam para os mistérios do mundo, para o  sagrado, para os traços divinos manifestados na natureza e no próprio homem, deve ser nossa forma ativa e atual de proteger a nossa civilização da queda. Não vislumbramos outra saída, se os posicionamentos filosóficos nos moveram para esse precipício civilizatório em que nos encontramos, é no campo da filosofia, então, que encontraremos as alavancas que nos arremessam novamente para cima. Voltemos aos clássicos, vivamos um Novo Renascer!

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