Imagine uma situação em que uma mulher está dando à luz sozinha em uma estrada deserta, você vai passando naquele momento, o que vai acontecer? É provável que, munido de uma força extraordinária que não se sabe de onde veio, você se lance sobre a parturiente com garra para lhe auxiliar naquele momento tão especial e necessário. É provável ainda que naquela hora a última coisa em que você vai pensar é no quanto será ou não elogiado, ou agradecido pelo que está fazendo. 

Mas em geral a maioria das coisas que fazemos na vida tem um caráter diferente desse episódio hipotético que acabamos de imaginar. Quase sempre precisamos, ainda que de forma não consciente, de ser reconhecido pelo que fazemos, de ser elogiado e aplaudido. Imagine que você trabalhou vários anos em uma repartição, se dedicou bastante, inovou, transformou aquele espaço, suprimiu férias, liderou equipes, investiu tempo e energia, se desgastou, passou anos sendo o primeiro a chegar e o último a sair e um dia você tira uma licença médica. Quando retorna, tem um recado para você comparecer na divisão de recursos humanos e o gerente, do outro lado da mesa, com uma fala insípida, sem graça e sem vida, lhe comunica formalmente que você está sendo substituído, por uma necessidade da empresa. E nada mais. 

Isso dói como um soco no estômago, pois há algo em nós que reivindica reconhecimento. Nessa hora concluímos que é covarde, injusto e desumano não ter suas ações reconhecidas.  

Mas há também outra ordem de situação: imagine aquele colega de trabalho que tudo o que faz é mais um espetáculo do que um fazer verdadeiro. Suas ações são maquiadas, pois quer aplauso a qualquer custo, quer mais o reconhecimento do que o resultado eficaz do que está fazendo. Se o que for necessário fazer é um tipo de ação que não trará nenhuma visibilidade nem um resultado que demande elogios, ele tentará de todas as formas passar para outra pessoa, mas se for um tipo de fazer que chama tanta atenção quanto um outdoor, então ela estará lá com toda a disposição do mundo para fazer acontecer.

Isso acontece pois temos duas naturezas, uma que está associada à nossa personalidade ou ao lado transitório da existência e outra que tem a ver com a imortalidade em nós. A parte transitória tende ao egoísmo, se interessa em recompensa, busca sempre o lucro, o prazer, o elogio, o reconhecimento e a realização pessoal; já o lado imortal, que é o verdadeiro “ser”, o que jamais morrerá, não tem nenhum interesse em recompensa e seu propósito é realizar a missão que lhe cabe nesta experiência. Assim, as ações movidas pelo “ser” estão ligadas ao sentido profundo da vida, sem nenhum apego, sem nenhum egoísmo. 

Esse agir desinteressado, em termos práticos, acontece quando a ação está ligada essencialmente ao dever. Nas situações hipotéticas que trouxemos, o exemplo da pessoa que se envolve espontaneamente em um trabalho de parto inusitado para socorrer a parturiente está muito ligado a uma ação do ser, totalmente movida pelo dever. Ações desse tipo são envoltas em sentimentos estéticos (há uma beleza profunda envolvida no ato); sentimentos éticos (o agente sente algo bom, sente que está fazendo a coisa certa) e sentimentos místicos: sente de algum modo que o que se está fazendo é algo que tem a ver com o sagrado, com o mistério da existência. Esse conjunto de sentimentos é o que nos leva à verdadeira felicidade.

Todas as escolas de filosofia clássica que conhecemos tratavam a felicidade como uma resultante desse tipo de agir, sem interesses. Por exemplo, na Academia de Platão, o sistema de educação era voltado para o esvaziamento de qualquer interesse egoísta, o discípulo aprendia a viver um método de vida em que a natureza egoísta era suplantada gradativamente pela natureza imortal. Esse método é bem esclarecido no livro A República, na figura do guardião que era instado a viver uma vida simples, com uma dieta frugal, sem muita variedade no cardápio, um viver afastado dos prazeres e dos desejos grosseiros, de modo que todo a sua satisfação ficava reduzida ao serviço e à entrega à Cidade. Quando isso é descrito em A República, um interlocutor de Sócrates pergunta: “mas como esses guardiões podem ser felizes assim?” E Sócrates responde: “eles são felizes quando a cidade é feliz”, ou seja, a verdadeira felicidade não é egoísta, somos felizes à medida que agimos não para nós, mas para a humanidade, para o Universo, quando cumprimos nosso papel aqui na Terra.

Nessa mesma linha, Aristóteles associava a felicidade à prática de virtudes. Para ele, que foi discípulo de Platão, a felicidade estava na ação virtuosa, na generosidade, no amor genuíno e sincero, no discernimento, na busca da sabedoria. E todas essas virtudes consistem em agir sem interesses egoístas, sem foco na recompensa.

Os primeiros filósofos do estoicismo.

Quando a Grécia de Platão e Aristóteles começa a decair, com o afastamento das ideias metafísicas e no campo político com a ocupação pelos macedônios, começa a surgir um movimento filosófico chamado estoicismo. Era chamado assim, porque os filósofos dessa corrente se reuniam nos portais, ou nas estoas, das cidades gregas para discorrer sobre a arte da vida. Essa corrente de pensamento, que é umas das últimas do mundo clássico que viria a desaguar totalmente na Idade Média depois do Século V da Era Cristã, na mesma esteira de Platão e Aristóteles, falava de felicidade como fruto da ação inegoísta. Para os estoicos, o agir sem interesses em lucro, em ascensão social, em realização pessoal, o agir desinteressado, o agir apenas pelo dever é o jeito mais sábio, mais eficaz na arte de viver. Em uma das obras mais significativas dessa corrente, Sobre a Brevidade da Vida, Sêneca discorre acerca do desperdício do tempo de vida, e cada exemplo que ele cita como sendo modelo desperdiçador da existência é um exemplo de um viver comprometido com o lucro, com a recompensa, com o triunfo pessoal. No fim do livro, nas últimas linhas, Sêneca deixa bem claro que o modo mais eficaz de se lidar com o tempo da vida é se ocupar das coisas do “Ser”, pois esse tipo de ocupação traz frutos que se eternizam, que atravessam os portais da morte.

Frase do livro “Sobre a Brevidade da Vida”, de Sêneca.

O movimento de Jesus e seus discípulos na Palestina, há dois mil anos, falava no mesmo sentido. Tem uma passagem dos evangelhos em que ele conta a história de um agricultor que investiu muito em seus negócios, investiu tanto que chegou ao ponto de os seus depósitos não comportarem mais tantos frutos. Então, resolve ampliar os limites de seus celeiros para guardar mais frutos e assim vai gastando toda a sua energia física, psíquica e suas reservas econômicas para produzir, produzir, produzir, quando não tem mesmo onde colocar mais produtos; deita-se para descansar e diz à sua alma: tens em depósito muitos bens, para muitos anos, descansa, come, bebe e folga. Neste momento, Deus olha para ele e diz: Louco! Esta noite lhe pedirão a tua alma; e o que tens preparado para quem será?

O agir interessado no reconhecimento, no lucro, na recompensa está ligado à vida passageira, à dimensão pueril da existência. Quem age para a eternidade o faz movido pelo dever, pela entrega, pela doação incondicional ao Universo, pois isso jamais terá fim.

Os escritos do pensamento budista no livro O Dhammapada, que significa o caminho para encontrar o seu Dharma, ou o seu propósito, não diferente das tradições já aqui citadas, discorre também sobre a mesma natureza de ação. Nessa obra o agir que não busca o fruto do desejo, mas que é movido pela simples razão de estar em harmonia com o Dharma com o seu caminho, ou o seu grande propósito de existência, é o agir que deve ser buscado pela humanidade.

Na mesma linha, o conceito de Reta Ação que aparece no livro sagrado Bhagavad Gita da tradição da Índia antiga aponta para o mesmo tipo de agir: sem interesse em recompensa, o agir que mira apenas a necessidade.

Foto de Valeriy Ryasnyanskiy.

Quanto mais nos aproximamos das antigas tradições, mais ficamos convencidos de que as forças que movem o modo de vida de nossa contemporaneidade  estão na contramão das recomendações de nossos ancestrais humanos. Vivemos hoje praticamente em função da realização pessoal. Tudo o que fazemos parece respirar lucro, estamos muito aquém desses conselhos. Vivemos em função do reconhecimento alheio e isso é uma prisão. Somos reféns do olhar do outro. Quando falamos “somos” nos referimos ao modo de vida que é predominante hoje.

Quantas vezes nos deparamos com cenas nas redes sociais em que nenhum outro interesse tem senão buscar o reconhecimento alheio de seus feitos? Gente que faz uma verdadeira produção cinematográfica para que o seu seguidor aplauda a sua “felicidade” e reconheça a sua capacidade de realização.  Esse tipo de agir é esvaziado de sentimentos profundos, atende superficialmente a um desejo egoísta e deixa a alma em um deserto. 

O agir que nos traz respostas profundas, que nos traz a beleza genuína, que nos traz sentimentos éticos e conexão consciente com o mistério, é o agir que não busca reconhecimento: o agir desinteressado. 

É claro que no atual momento em que nos encontramos, este tipo de ação, que o Bhagavad Gita chama de Reta Ação, está muito distante do nosso alcance. Mas precisamos sonhar com esse estado de consciência como um horizonte a ser alcançado. Precisamos trabalhar todos os dias para construir um modo de vida não egoísta, que atenda apenas ao Dharma, ou seja, ao grande propósito da existência humana. 

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