Todo Ser Humano anseia pelo Saber. Desde assuntos banais até os maiores mistérios do Universo, é inegável que o Conhecimento faz parte da nossa Natureza. Não por acaso, o nome da nossa espécie foi batizada de homo sapiens sapiens, ou somente “o homem que sabe”. Grande parte das nossas descobertas está ligada ao campo da razão, nossa principal ferramenta para se chegar à cognição.

Graças à nossa capacidade de raciocinar e criar relações lógicas, fomos capazes de feitos brilhantes, muito além de qualquer outra espécie do nosso Planeta. Foi utilizando essa faculdade mental que criamos pirâmides, catedrais góticas, fomos à Lua e desenvolvemos as mais distintas tecnologias, como celulares e computadores. Entretanto, quais os caminhos que nos levam a todos esses saberes? Será que a única forma de aprendermos sobre a Natureza e suas leis é, necessariamente, utilizando a razão?

A Filosofia é uma ótima ferramenta para investigarmos essa Ideia. Os amantes da Sabedoria, como são chamados os Filósofos, estão se debruçando sobre esse assunto há milênios, uma vez que a origem da Filosofia remonta à própria Humanidade. Porém, antes de entrarmos nesse complexo assunto, cabe definirmos, de antemão, o que significa Sabedoria. Em linhas gerais, a definição clássica de “sabedoria” é a de compreender as leis da Vida e entrar em seu fluxo. Ao contrário do que pensamos, o Sábio não é aquele que devora livros e explica todas as teorias, mas é o Ser Humano que compreendeu as leis do Universo, como funcionam os seus mecanismos, e vive de acordo com as suas orientações. O Sábio, portanto, utiliza a Sabedoria como meio para integrar-se à Natureza, não para dominá-la. 

É a partir da Sabedoria que o Ser Humano seria capaz de acessar os mistérios do cosmos, pois aprenderia a sua organização e funcionamento. Não através dos livros e manuais, mas sim por sua Percepção, Experiência e Reflexão. Sendo assim, a própria Ideia de Sabedoria nos aponta para o fato de que não é apenas através do intelecto que se trilha o caminho. Porém, Aristóteles, Filósofo Grego que se voltou a esse tema, nos fala algo ainda mais interessante quando se trata da Sabedoria. Para ele, existiram três níveis ou graus de Saber: a experiência, a técnica e a sabedoria em si. 

Cada uma delas seria uma escada para se alcançar o mais pleno e completo Conhecimento sobre algo. Para ficar mais claro, vamos exemplificar: imaginemos que desejamos aprender a pintar. Se optarmos por adquirir esse Conhecimento através da experiência, o que irá acontecer? Provavelmente, erraremos muito, mas em algum momento, após horas de treino diário, chegaremos a um resultado ao qual podemos dizer que aprendemos a pintar. Entretanto, mesmo com muita experiência, não somos capazes de transferir esse saber para outra pessoa, pois esse outro aspirante a pintor precisará, necessariamente, viver a experiência de tentativas e erros para ir compreendendo o processo. Podemos aconselhar, tentar dar dicas, mas a experiência em si é intransferível. Devido a essa limitação, Aristóteles elencou a Experiência como o primeiro grau de Saber.

Somente a partir da experiência, poderemos aprender pouco e a muito custo. Porém, o segundo grau de Saber é um pouco mais sofisticado: a Técnica. Com a técnica, ou seja, aplicando um método e conhecendo a melhor maneira de executar algo, chegamos a um resultado mais próximo e real de verdadeiramente conhecer algo. Utilizando nosso exemplo do pintor, se, ao invés de apenas ir pintando, tivéssemos estudado em um curso de pintura, aprendido sobre as nuances das cores, a maneira correta de misturá-las para formar nossas paletas e, a partir desse estudo prévio, partir para a prática, chegaríamos a um resultado mais próximo do que é saber pintar.

Segundo Aristóteles, a Técnica está em um grau mais elevado porque conseguimos transmiti-la a outra pessoa, além do que, para desenvolvê-la precisamos nos aprofundar em nossa experiência. O método, portanto, nos dá as ferramentas adequadas de como iremos atingir esse Saber. Porém, Experiência e Técnica são fundamentais, pois de nada adianta entender todos os meios sem nunca irmos à prática. 

No entanto, apenas com técnica e experiência essa “escada” do saber não está completa. Falta ainda seu último patamar, a Sabedoria em si, que só é alcançada quando compreendemos o sentido e finalidade pela qual estamos realizando alguma atividade ou buscando aprender. Sem essa percepção de finalidade, a técnica e a experiência se tornam vazias, pois estaremos realizando uma ação sem compreender suas causas. Assim, a Sabedoria só pode ser atingida quando conhecemos profundamente algo ao ponto de entendermos seus princípios e finalidades. Nesse nível, portanto, estaríamos realizando com plena consciência nossa tarefa enquanto pintores.

Desse modo, o caminho para alcançar a Sabedoria, de acordo com Aristóteles, envolve não apenas a prática, muito menos somente a teoria, mas principalmente uma conjugação desses dois “extremos”. Acima disso, para chegar aos mais altos níveis do Saber, é fundamental conhecer os princípios e causas, ou seja, a finalidade por trás de cada ação que buscamos. Frente a isso, cabe a nós refletirmos sobre como buscamos a Sabedoria. Provavelmente, acreditamos, ainda, na falsa Ideia de que uma pessoa culta é, necessariamente, sábia. Ou ainda que diversos diplomas e empresas transformam uma pessoa bem sucedida nessas áreas em verdadeiros gurus detentores de um precioso saber.

Entretanto, se fosse assim, tais pessoas não sentiriam os mesmos dilemas existenciais que afligem o Ser Humano. Além disso, não sofreriam com doenças que nascem da nossa própria incompreensão da Vida. Visto isso, desconfiamos que tais aspectos não compõem, necessariamente, um caminho para a Sabedoria. É evidente que também não atrapalha, uma vez que para se formar em uma faculdade e manter seus negócios lucrativos é necessário, gostemos ou não, ter um certo saber. 

O que buscamos destacar, porém, é que existe algo além dos saberes práticos da nossa Vida. Pensemos em nossas profissões: podemos ser bem sucedidos no ofício que escolhemos por termos aprendido diferentes técnicas e termos experiência em nossos trabalhos, não é? Mas o que vai verdadeiramente diferenciar alguém em nossas áreas? Provavelmente, compreender as causas e finalidades de tudo que compõe aquela profissão. Pois, tendo em mente essa diferença, poderemos agir conforme a necessidade nos demanda, sem esquecer desse princípio básico.

Dessa forma, um Professor, por exemplo, pode ter muita experiência e diversas técnicas de ensino, mas se ele não compreende a razão pela qual sua profissão existe e ele cumpre suas obrigações pensando apenas em seu salário, então, mesmo sendo muito bom no que aprendeu a fazer, ele ainda não detém a Sabedoria na Arte de Ensinar. Podemos estender essa Ideia para todas as profissões, pois, no fundo, o verdadeiro profissional é aquele que domina todos os graus do saber da sua profissão. 

Sendo assim, o pensamento de Aristóteles não foi apenas uma percepção adquirida na Antiga Grécia, mas uma constatação dessas maneiras pela qual interagimos e buscamos a Sabedoria. De maneira similar, outros pensadores também refletiram sobre isso. Não iremos – nem é nossa pretensão – elencar todas as teorias acerca do Conhecimento e os caminhos que nos levam à Sabedoria, pois não existiriam palavras, nem linhas suficientes para tanto. Iremos abordar apenas mais dois modelos de pensamento que são interessantes para pensarmos acerca disso, dos Filósofos: Epicuro e Confúcio.

Continuando no modelo de Pensamento Grego, Epicuro vai nos falar bastante sobre a experiência como meio de síntese para adquirir a Sabedoria. Segundo o Filósofo, podemos aprender através da observação do outro, ou seja, imitando seu comportamento, ou vivenciando as nossas próprias experiências. Através desses dois caminhos, aliados à capacidade de refletir e sintetizar o que experienciamos, chegaríamos ao Saber. Frente a isso, pensemos em uma criança. A psicologia nos prova, hoje, que grande parte do aprendizado das crianças se dá, principalmente na primeira infância, através da repetição e imitação do comportamento dos adultos, em geral, os seus pais. 

Como sabemos, a criança em seus primeiros anos de Vida, ainda está formando sua psique, assim, sua capacidade de usar a lógica e razão para sintetizar as próprias experiências é limitada. Dessa forma, seus padrões de comportamento, a fala e as demais características são obtidas por meio da imitação. Segundo Epicuro, esse padrão de aprender por observação é levado também para nossa Vida adulta, pois, ao observarmos uma pessoa que admiramos ou que desejamos ser, tendemos a imitá-la, ou buscamos saber por reparar no seu comportamento. Assim, não vivemos nossas próprias experiências, mas a do outro. E buscamos aprender sobre o Mundo a partir da reação dos demais. Colocando em exemplos, se observarmos alguém queimar a própria mão e sentir dor não precisamos, necessariamente, passar pela mesma experiência, pois através da observação, adquirimos o entendimento de que queimar a mão é ruim. De igual modo, se alguém que admiramos nos conta que uma determinada sensação é boa, e ao observamos, sentimos prazer com isso, aprendemos a fazer essa relação, e tendemos a buscar vivenciá-la por imitação. 

Utilizando o método de Epicuro, podemos aprender bastante com as outras pessoas, livrando-nos da dor e buscando sempre o prazer. Também é importante ressaltar que esse método envolve uma síntese das experiências, ou seja, é fundamental, nesse processo, refletir e usar a razão para aprendermos, ao máximo, com o que vivenciamos. Se não fizermos isso, muito provavelmente repetiremos os erros e nos encontraremos (re)vivendo as mesmas experiências, pois delas nada tiramos. Dessa maneira, o caminho que Epicuro nos ensina é capaz de nos guiar perante a Vida, uma vez que irá exigir não apenas a prática, mas o exercício diário de reflexão, seja em assuntos que vivemos “na pele” ou através de outras pessoas.

Tratando ainda sobre esse assunto, o grande Sábio Chinês Confúcio nos explica, de maneira didática, as três maneiras que levam ao saber:

“Há três métodos para ganhar sabedoria: primeiro, por reflexão, que é o mais nobre; segundo, por imitação, que é o mais fácil; e terceiro, por experiência, que é o mais amargo”.

É interessante notar que, apesar de palavras diferentes, as Ideias que Confúcio nos apresenta são similares às de Aristóteles e de Epicuro. Porém, cabe investigarmos cada um desses métodos citados pelo Sábio para entendermos sua percepção acerca da Sabedoria. Quando, por exemplo, Confúcio fala que a “imitação” é o método mais fácil, ele está considerando que, para atingir a Sabedoria, basta seguir os passos dos Sábios. Logo, se nós imitamos alguém que detém o Conhecimento, nós também acabamos tendo esse Saber. Compreendemos, porém, que a Sabedoria não pode ser adquirida somente assim, por isso que, por mais que seja “fácil”, a imitação não é nobre.

É certo que, se imitamos um mestre de Sabedoria, em suas palavras e atos, poderemos ter um grau desse Saber. Mas, sem reflexão, que acaba por tornar a prática autêntica e nos permite “enxergar com nossos próprios olhos”, jamais poderemos dizer que chegamos à Sabedoria. Assim, o exercício de refletir sobre as nossas ações irá nos tornar dignos da Inteligência. Junto a isso, a experiência é, de acordo com Confúcio, a mais amarga etapa, pois ela, em geral, nos faz aprender a partir da dor. Por errarmos diversas vezes e seguirmos tentando, iremos, naturalmente, nos machucar e aprenderemos com os nossos erros. Por mais que seja amarga, a experiência pode ser um caminho eficaz, porém não tão inteligente.

Sendo assim, nos parece claro, tanto de acordo com os Pensadores do Ocidente como do Oriente, que os caminhos para alcançar a Sabedoria podem ser diversos, mas nem todos reluzem no verdadeiro brilho do Saber. Porém, mesmo que por caminhos distintos, parece unânime a Ideia de que sem o bom uso da Razão, jamais chegaremos longe em nossa busca pela Sabedoria. Afinal, se a Razão é a nossa maior faculdade e uma dádiva que somente os Seres Humanos possuem, por que não a usaríamos para chegar a tão nobre destino?

Por fim, frente a todas as Ideias apresentadas, é fundamental compreendermos que somente chegaremos a um patamar distinto de Saber se bem usarmos a Razão, aliando-a com nossas experiências. Dito isso, de nada ou muito pouco adianta nos debruçar sobre muitas teorias, mas devemos, antes de tudo, garantir que iremos vivenciar algumas. A ação é, portanto, o nosso caminho para o verdadeiro Saber, pois sem caminhar jamais chegaremos ao final desta saga. Seguindo, portanto, o conselho de um grande Filósofo, devemos nos preocupar em viver Ideias, não em conhecê-las. 

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