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O que é a amizade? Essa palavra, assim como tantas outras ao nosso redor, parece cada vez mais esvaziada de sentido em nosso mundo atual. Vivemos na era onde os “digital influencers” impactam cada vez mais os resultados da opinião pública, onde a comunicação social se fortalece através dos dados criptografados e as relações humanas se tornam cada vez mais virtuais e menos pessoal, fazendo com que as pessoas sejam definidas a partir do quantitativo de likes e seguidores de seus perfis, e não pelos seus valores humanos. Frente a isso, cabe a nós refletir sobre o verdadeiro significado da palavra “amizade” e entender se realmente a buscamos em nossas relações. É nesse contexto que queremos compreender qual o real sentido de ser amigo para além dos likes, comentários, compartilhamentos de posts rápidos e de conteúdos pessoais expostos nas vitrines virtuais.

Mas como nasce e se desenvolve uma amizade? Qual a sua importância para os indivíduos? A conquista de um novo amigo, ou a perda deste, como ela participa e ajuda na construção de quem nós somos? O sentimento de amizade foi estudado em várias áreas acadêmicas, como a sociologia, psicologia social, antropologia e filosofia. Vários trabalhos já foram propostos ligando o tema a teorias de troca social, teorias de vínculos afetivos ou estilos de relacionamento, geralmente, aproximando esses estudos com o conceito de felicidade. Alguns dados até revelam que as pessoas que são ou têm amigos são mais felizes. E isso faz muito sentido, porém, o problema é saber diferenciar um verdadeiro amigo entre tantas pessoas com quem interagimos durante a nossa vida.

Vivemos em uma sociedade que tem optado por se relacionar cada vez mais através dos meios digitais e que, com isso, tem perdido as experiências interpessoais. Desse modo, no mundo, onde a ideia da vez é que “tudo é líquido e se dissolve no ar”, as pessoas têm sido levadas a buscar um estilo de vida em que as relações são efêmeras e instáveis, e que tem como marca registrada o descompromisso. Sabemos que isso não é uma regra e que toda generalização é, consequentemente, um erro, mas estamos falando em uma escala social, e esse fenômeno, como produto de uma comunicação cada vez mais rápida, tem ganhado espaço em nossas vidas. Sendo assim, quase como uma ironia da vida, no momento em que conseguimos nos conectar com qualquer pessoa do planeta, ao mesmo tempo, o mundo é o local onde mais nos sentimos sozinhos em relação a verdadeiras amizades. Ao contrário do que as timelines e stories insistem em nos mostrar, onde muitos ostentam em suas lindas fotos muita alegria e popularidade, grande parte das pessoas vive cada vez mais solitárias e com medo de se relacionar.

Diante disso, o que percebemos é que vivenciamos, sob o nome de amizade, um “amiguismo” fácil e inconstante, próprio das circunstâncias. E é diante deste cenário que queremos refletir sobre o verdadeiro sentido da amizade, sobre o qual diversos filósofos já se debruçaram e a partir do qual enxergaram a beleza dessa relação. Queremos entender a Amizade em seu aspecto mais profundo, como uma expressão de amor, de interesse e de conhecimento do outro, aquela que vence as barreiras da distância e do tempo, e tem sua identidade num sentimento de fraternidade, ainda que não existam os vínculos sanguíneos.

A história da humanidade e das grandes civilizações antigas está marcada por inspirações, conselhos e mitos representando a importância da amizade entre os homens e os povos. Para citar alguns exemplos, Aristóteles, filósofo grego e discípulo de Platão, na obra “Ética a Nicômaco”, afirma que a amizade é um elemento essencial para a plenitude ou a felicidade. Mas o mesmo Aristóteles nos fala que a felicidade é uma condição interna, que não depende de nenhum fator externo para se realizar. Como a amizade pode, então, ser um elemento que compõe a felicidade? Devemos entender, inicialmente, o que é a amizade para esse filósofo. A amizade para Aristóteles é um reconhecimento de naturezas iguais. Um verdadeiro amigo é aquele que divide os mais profundos princípios e valores humanos com você, ou seja, é quem, em essência, está ligado à sua moral em seu sentido mais elevado. Para conquistar a essência de si mesmo, porém, é preciso saber quem se é e, consequentemente, viver de acordo com sua natureza humana. Logo, o ser humano feliz – aquele que conhece a si mesmo e vive de acordo com sua essência – naturalmente encontrará outros que também têm essa mesma essência, tornando-se assim amigos.

 Nesse sentido, a amizade de Aristóteles vai muito além das relações superficiais que enxergamos hoje, nas quais chamamos de amigo qualquer pessoa que esteja ao nosso lado em uma mesa de bar, em um campo de futebol ou em qualquer outra situação social banal. Superando todos esses aspectos circunstanciais, a amizade se eleva como um fator que está ligado ao mais perene em nós e, por isso, também se constitui como algo atemporal, formando laços inquebrantáveis para toda a vida. O nosso “amigo” do futebol, das idas ao shopping, por vezes pode não estar ao nosso lado quando mais precisamos, porém um amigo de verdade, que compartilha dos mesmos valores, é sempre alguém em que podemos confiar nos momentos de grande dificuldade.

Já para o filósofo romano Cícero (106 – 43 a.C.), quem possui um amigo, enxerga nele um reflexo de sua própria alma. Essa perspectiva tem um sentido similar ao apontado por Aristóteles, mas há também um aspecto interessante a ser entendido sobre a definição do romano. Aqui a amizade se mostra como um espelho e chamaremos de amigo aquele que mais se assemelha a nossa imagem. A questão que surge é: será que estamos gostando do reflexo que geramos? Muitas vezes algumas atitudes de nossos “amigos” nos deixam mal, nos envergonham e até podem nos fazer questionar sua índole. Assim, por que continuamos com essas amizades? Porque há algo em nós que nos aproxima, que nos faz vibrar nessa mesma “sintonia”. Considerando essa perspectiva, deveríamos ser capazes de diferenciar as amizades que estimulam o melhor em nós, e por consequência refletem os aspectos superiores de nossa alma, enquanto haveria amizades “menores”, as quais poderíamos classificar como “coleguismo”, que acabam por estimular nossas emoções e elementos mais grosseiros. Assim, caberia a nós diferenciar e escolher quais amizades seriam as mais benéficas para nossa conduta pessoal. 

Para Khalil Gibran, ensaísta, filósofo, pintor e poeta de origem libanesa, a amizade é um sentimento que nutre, fortalece, alarga e alonga a relação entre as pessoas. Como um músculo – que quando exercitado, torna-se mais forte, capaz de realizar seu trabalho com mais intensidade –, uma relação de amizade também é capaz de suportar os maiores desafios e assim, por mais difícil e complexa que seja a situação vivida, amigos nunca rompem esse laço sagrado. 

Além desses, tantos outros filósofos reforçam a ideia de que a amizade é um valor altíssimo, chegando a acreditar que sem a amizade não há vida. A amizade, portanto, pressupõe uma relação afetiva entre indivíduos que, independente de origens ou gostos diferentes, possuem um sentimento de lealdade, reciprocidade de afeto, ajuda mútua, compreensão e confiança. Nesse sentido, valores e comportamentos relacionados com a amizade podem variar de acordo com a cultura da sociedade ou com o momento específico da história, entretanto, é consenso que para experienciar o sentimento de amizade é necessário vivenciar, caminhar lado a lado, criar laços e saber que nunca vai estar só. No entanto, a dimensão fria e os protocolos das redes sociais são incapazes de nos possibilitar determinada experiência.

Se entrarmos no campo das doutrinas religiosas, podemos também simplificar tudo na experiência da verdadeira amizade. Cristo dizia “Amai ao próximo como a si mesmo”. Ele também disse para a sua mãe amar ao seu discípulo como se fosse seu próprio filho, e ao discípulo que amasse Maria como se fosse a sua mãe. Assim, a verdadeira amizade é exatamente este amor puro, que não cobra nada, que não depende de vínculo familiar e que não quer nada em troca.

Geralmente, após esta reflexão, tendemos a ficar desconfiados das pessoas que nos cercam e surge em nossas mentes a dúvida: “Quem são meus verdadeiros amigos?”. Porém, mais importante do que isso, deveríamos nos questionar: “Para quem eu estou sendo um verdadeiro amigo? Quem pode contar comigo quando for necessário sem que eu queira nada em troca? Como eu posso servir melhor as pessoas?”.

Afinal de contas, se o outro desenvolveu ou não esse sentimento de amizade, cabe a ele refletir. O que nos cabe é fazer o que depende de nós através da busca constante de sermos pessoas mais humanas, amorosas e altruístas, pois, como diz a famosa frase do grande Mahatma Gandhi: “Quem não vive para servir não serve para viver”. Que possamos, então, estar sempre prontos para servir aos nossos amigos!

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