Todos nós já ouvimos que devemos ser mais humanos. Apesar de ser um clichê e por vezes um discurso um tanto quanto previsível, será que realmente compreendemos o que seria, de fato, desenvolver ainda mais nossa humanidade? Muitos de nós podem responder que se trata de “fazer o bem” ou “desenvolver nossa consciência”; e sim, essas são respostas válidas, mas talvez precisemos de um pouco de profundidade acerca dessas questões.

Para desenvolver a humanidade é preciso aprender, primeiramente, o que é o ser humano. Se para alguns somos apenas mais uma espécie da natureza, para outras pessoas somos verdadeiras obras de Deus. Vale ressaltar que ambas as respostas, dentro dos seus pontos de vista, estão corretas e não se excluem; afinal, se considerarmos que toda a natureza é reflexo de uma inteligência ou mecanismo que ordena e harmoniza, seja através de leis ou forças desconhecidas, pode-se afirmar que somos obra dessa inteligência. Mas, afinal, o que é o ser humano?

A rigor podemos dizer que somos a única espécie com autoconsciência nesse planeta, logo, mesmo que sejamos uma espécie entre milhões de outros seres vivos, nenhuma delas é capaz de compreender a vida, os mistérios da natureza e suas leis como nós. É inegável que a natureza humana, ou seja, aquilo que nos torna únicos nesse planeta, é essa capacidade de ampliar nossa consciência através de uma razão. Enquanto outras espécies estão reféns dos seus instintos, nós possuímos o livre-arbítrio de escolher como queremos nos comportar, viver, pensar e explorar as possibilidades que esse mundo nos dá. 

Ainda assim, mesmo com todo o potencial que a humanidade possui, é lamentável a quantidade de guerras, desigualdades e conflitos sociais que encontramos em nosso dia a dia. Nosso bem mais precioso, a razão, acaba subordinada a fins egoístas e, consequentemente, acaba criando muros ao invés de pontes, que ligaria todos nós. Acabamos nos separando por diferenças étnicas, credos, gênero e sexualidade, além de outras tantas segregações criadas para dividir nosso pensamento e impedir, de forma objetiva, que a semente da unidade entre os seres humanos germine. 

Visto isso, hoje viemos recomendar um filme que nos mostra o valor de buscar a unidade entre nós, apesar de toda e qualquer aparente diferença: seu nome é Rosa e Momo. Em um breve resumo sobre o que podemos aprender com esse longa-metragem, a história por trás desse filme nos convoca para uma reflexão sobre a humanidade de hoje, com nossas crises migratórias, nossos conflitos étnico-religiosos, nossas intolerâncias e nossos preconceitos, levando-nos a entender como é possível transcender a isso tudo a partir da consciência de que somos uma grande família humana.

Adentrando sobre os aspectos do filme, temos Rosa, uma idosa, judia, com mais de 70 anos, sobrevivente do holocausto, que ainda carrega no braço um número tatuado, que era o código de identificação que se usava nos campos de concentração. Em outro momento da sua vida foi uma profissional do sexo e hoje ganha a vida cuidando dos filhos de suas colegas de profissão. Já Momo, ou Muhammad, é um garoto de 12 anos, órfão, senegalês, cuja mãe foi brutalmente assassinada, e que carrega um trauma que se reflete em pesadelos e sonambulismos. Vive de pequenos furtos em uma região pobre da cidade de Nápoles, no sul da Itália, e é ajudado por um médico, Dr. Coen, que, assim como Rosa, também é judeu.

Para entender melhor o contexto dessa história, recomendamos que assista ao trailer do filme, que está disponível logo abaixo.

O encontro entre Momo e Rosa se dá da seguinte forma: Rosa está em uma feira pública, comprando alimentos, quando é abruptamente assaltada por um garoto, que lhe arranca alguns castiçais que trazia em sua sacola. Normalmente um castiçal é visto como um suporte de velas, tipo um candelabro, mas, para os judeus, é muito mais que isso, é o símbolo de sua identidade como povo. Quando o Dr. Coen percebeu o que Momo trouxera para casa, imediatamente identificou quem teria sido a vítima e o obrigou a devolver o objeto a Rosa e a se desculpar. 

Dr. Coen vê algo além e pede a Rosa para cuidar de Momo. Ela se recusa energicamente, mas a insistência do médico e a proposta irrecusável de lhe pagar 700 euros mensais a fazem mudar de ideia. Assim, em uma convivência inicialmente quase impossível, esses dois personagens tão díspares, tão antagônicos, de idades, etnias, religiões e índoles tão diferentes, são obrigados, por força das circunstâncias, a viverem sob o mesmo teto.

Rosa é interpretada por uma lenda do cinema, a atriz Sophia Loren. Ela já foi considerada uma das melhores atrizes do mundo. Além disso, é premiadíssima, carregando em seu currículo desde o Oscar de melhor atriz de 1962, a Grammy, globos de ouro e outros prêmios. Eleita uma das mulheres mais lindas do mundo, Loren, nascida na Itália, quando adolescente, durante a Segunda Guerra Mundial, teve sua cidade bombardeada, chegando a ser alcançada por estilhaços de bombas que lhe feriram o queixo. Após constituir família na década de 1970, afastou-se do cinema para cuidar dos filhos. Hoje, aos 86 anos, ela surpreendeu o mundo aparecendo na pele dessa personagem fortíssima. Sua atuação é muito forte e faz com que fiquemos com a imagem de Rosa na mente, pois sua presença de espírito é muito intensa e seu olhar é profundo.

Ao longo da trama, a relação entre Rosa e Momo vai se transmutando gradativamente. Uma relação de desconfiança, ódio e traumas não resiste ao encontro de almas. Momo tem uma alma de menino. Abandonado, órfão, vítima de atrocidades terríveis, imigrante, negro; porém, lá no fundo, é forte, apaixonado pela vida e intensamente humano. Numa das cenas do filme, ele compra uma bicicleta nova e sai pedalando pelas ruas de Nápoles. A alegria expressa em seu sorriso ao fazer isso traduz a alma inocente e profundamente humana daquele personagem. Já Rosa é outra personagem intensamente Humana, que vive o fim dos seus dias, já tendo passado por tantas coisas na vida: tantos desencontros, tantos sofrimentos e tantas alegrias.

Essas duas almas gigantes, ao se encontrarem, debaixo do mesmo teto, superam tudo. As diferenças de idade, de geração, de religião e de etnia são diluídas nesse encontro profundo. Isso nos faz refletir profundamente sobre como a humanidade não possui barreiras externas, mas, sim, apenas travas psicológicas. Muitas vezes, nos distanciamos dos outros por causa de sua idade, aparência ou crenças, mas esquecemos que por trás de todas as aparentes diferenças se esconde a natureza humana, comum e pulsante em todos nós. Somente isso já seria suficiente para nos movermos em busca de uma maior unidade entre nós, pois somos fruto de uma mesma espécie que caminha para a evolução. Nessa perspectiva, não faz sentido alimentar uma competitividade ilusória, ou mesmo tentar criar uma hierarquia baseada em status, posses ou qualquer outro elemento social que, na maioria das vezes, serve apenas para nos deixar parados na estrada da evolução espiritual. 

O filme é baseado no romance La vie devant soi (A vida pela frente), do escritor francês Romain Gary, que foi piloto durante a Segunda Guerra Mundial. A ideia central do livro, e do filme, é mostrar que, se fosse possível promover o encontro verdadeiramente humano de pessoas em posições diametralmente opostas, como o algoz e a vítima, ou o intolerante e o intolerado, ou que estão em posições étnicas e religiosas distintas, como acontece entre judeus e árabes na Palestina, esse encontro profundo de almas levaria essas pessoas à união, ao amor e à superação das condições que produziram o ódio entre si.

Há um lugar no centro da alma humana que é só amor. Lá o ódio não consegue entrar, não há medos, não há intolerância, nem abandono, nem violência, nem rejeição. No filme, Rosa tem um quarto escondido no centro da sua casa, que somente ela acessa e se tranca quando as coisas vão muito mal. Esse quarto é um símbolo físico desse lugar interno e puro dentro de nós. Momo consegue entrar nesse espaço. É dentro desse lugar profundo da alma de Rosa, fisicamente representado por esse quarto no porão, que brota a relação de amor entre os dois personagens de vidas tão distintas, mas tão similares ao mesmo tempo, tão bombardeados pela vida. 

O filme é um convite para encontrarmos esse lugar profundo dentro de nós. O lugar puro, imaculado, onde o ódio não alcança, onde não há traumas nem medos, apenas amor e acolhimento. A nossa alma nunca precisou tanto encontrar esse lugar como agora, diante de tantas tragédias humanitárias que nos amargam. Em meio a tanta violência, intolerância e discórdia, só é possível superar isso encontrando o amor, e, como dizia Leon Tolstói: “Onde existe o amor, Deus aí está.”

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