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Você já parou para pensar em quem você seria se não tivesse passado pelas suas dores? Como você seria internamente, quais seriam suas crenças e motivações se você não tivesse enfrentado as dificuldades que o trouxeram até aqui, hoje? As experiências que enfrentou lhe tornaram mais humano ou mais rude? Você desenvolveu mais ou menos empatia? Essas e muitas outras reflexões podemos fazer a partir deste curto, porém profundo curta-metragem intitulado “Snowball”. 

Narrando de forma resumida, a animação mostra um cenário familiar: pai, mãe e filha que viviam de forma harmônica e amorosa numa casa, até que por motivos maiores, a mãe sai de cena, deixando apenas pai e filha convivendo com o peso do vazio. A criança, sem compreender o drama da situação, volta ao seu estado natural de alegria na rotina, mas sem sucesso não consegue fazer o mesmo pelo pai, que segue preso na dor e tristeza.

O desfecho do curta não contaremos de propósito, para que o leitor fique curioso e assista até o fim a animação. No entanto, podemos antecipar algumas reflexões feitas a partir do vídeo. O mais interessante é desenvolvermos uma visão mais profunda e buscar em nós mesmos os elementos para observar e trabalhar, a partir dessas reflexões. Em primeiro lugar cabe pensarmos um pouco sobre como é nossa relação com o passado. Como as experiências passadas nos influenciam hoje? Nos relacionamos com a síntese delas, os aprendizados obtidos e a partir disso nos impulsionamos, ou apenas carregamos todo o peso por onde andamos?

Existem duas formas de nos relacionarmos com o passado. Uma é usá-lo como um trampolim e a outra como grilhão. Se você usa o que foi vivido e faz uma síntese, aquele aprendizado lhe impulsiona no futuro, como um salto em um trampolim. Porém, se você lembra dos detalhes das experiências, das dores, de tudo que sentiu e carrega essas memórias consigo, acessando sempre que deseja, sem nenhum tipo de aprendizado, apenas recordando as dores, seu passado se torna um grilhão e você carrega todo o peso dele aonde vai, dificultando sua caminhada e impedindo de avançar com liberdade. 

Isto podemos observar no personagem do curta. O pai não conseguiu desapegar da dor, mesmo o tempo passando. A filha cresceu, a rotina mudou e ainda assim ele ficou paralisado no tempo. Paralisação tão grave que quase os leva à morte. Muitas vezes fazemos isso em nossas vidas, nos prendemos ao passado por apego. Não queremos que os momentos cheguem ao fim, que as pessoas partam, que a vida mude. E quando somos forçados a abraçar a mudança, mantemos no presente o pensamento preso no passado, como uma forma de não aceitação do novo, um mecanismo de proteção, um manter-se na zona de conforto e um apego a quem éramos ou o que vivíamos. 

Não é à toa que muitas doutrinas filosóficas e de sabedoria antiga afirmavam que o processo de sabedoria do homem envolve conhecer e agir de acordo com as leis da natureza. O apego ao passado se torna uma dificuldade de compreender a Lei dos Ciclos, que naturalmente tudo que começa uma hora termina, e vice-versa. Se compreendêssemos que os inícios e fins são momentos de algo muito maior, que existe um sentido mais profundo por trás dos fatos e que tudo na natureza, sem exceção, obedece a esta lei, talvez sofreríamos menos com os desnecessários apegos ao passado. 

O que permitiu o pai sair do quadro de tristeza foi o amor pela filha. O amor superou a dor. Ao perceber a gravidade em que a filha se encontrava por sua causa, se ele não tivesse se reposicionado imediatamente, teria sido tarde demais para reverter o quadro. Isso também é comum de acontecer com todos nós. Por vezes queremos nos lamentar e dramatizar a situação, mas tem pessoas que dependem da gente, pessoas que contam conosco e até que se inspiram em nós. Por elas não podemos entregar os pontos. Não podemos desistir, se lastimar ou vitimizar. Isso porque felizmente saímos de grandes enrascadas psicológicas graças ao senso de dever e empatia para com o outro. Se não fosse essa responsabilidade, o que talvez na hora se considere um fardo, qual garantia que sairíamos da situação dolorosa?

Não tem como não pensar de imediato na ideia da resiliência. Transformar a dor num motor que vai dar forças para a superação. E não há melhor motor do que o outro. Por nós mesmos muitas vezes abrimos mão de alguns compromissos, algumas ideias…mas quando os outros estão envolvidos, cancelar já não é tão simples. Saímos da esfera egoísta e passamos a um nível de altruísmo, nos superamos. E isso acontece em esferas tanto pequenas quanto grandes. Um exemplo atual disso é o que aconteceu na Turquia e Síria em fevereiro deste ano.

Após o terremoto devastador, enquanto o resgate não chegava, os próprios moradores que sobreviveram ao desastre se uniram para salvar as pessoas presas nos escombros. Imagine que situação, você acaba de sobreviver a um desastre, no meio da noite, perde sua casa, seus bens e antes de se lamentar, age pelo dever e tenta salvar mais pessoas. Como se lamentar do que perdeu, enquanto outros lamentam por não saber se vão sobreviver? 

Há um ditado que diz que quanto mais se pensa em si, mais se esquece dos outros; e quanto mais se pensa nos outros, mais se esquece de si. Esquecer de si mesmo neste caso é algo bom, implica que você passa a se preocupar mais em ajudar as pessoas do que alimentar seus medos, fantasias, crenças e debilidades. Quanto mais ajudamos os outros, mais expandimos nosso coração e geramos menos problemas na nossa própria vida. 

Sendo assim, não podemos esperar o momento crítico chegar para mudar a mentalidade, tal qual o pai da criança na animação. Precisamos querer aprender com a Lei dos Ciclos e estar atentos para a vida, observar suas nuances, observar quem está ao nosso lado, pois sempre há alguma forma de ajudar, sempre podemos fazer algo pelo outro. Isso é ser movido pelo amor. No entanto, agir com amor não é fazer tudo que se gosta, agir com amor é agir em nome do dever, da generosidade, bondade e justiça. 

Dito tudo isso, façamos o teste. Sempre que estiver focado em suas dores e problemas, procure a pessoa mais próxima e veja como pode ajudá-la. Às vezes a ajuda é simplesmente dar atenção, conversar um pouco. Observe se ao longo do tempo, seus problemas não diminuirão de tamanho e você se sentirá mais realizado e feliz. Quem sabe isso quer dizer amor?

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