Estamos todos conectados. Às vezes é fácil perceber algumas dessas conexões, como as que temos com parentes ou amigos. Outras parecem menos prováveis, como entre pessoas com interesses diferentes. Algumas soam impossíveis de existir, como entre desconhecidos de culturas distantes. Mas, no fim, a verdade é que estamos todos unidos por algo, ou alguém, seja no mais superficial dos graus, ou no mais profundo. E, não se surpreenda ao descobrir que algumas das conexões mais sólidas podem se estabelecer entre a combinação mais improvável de pessoas.

No curta “Link”, de Robert Löbel, disponível no Youtube, conhecemos dois personagens ligados um ao outro pelos cabelos. Aonde quer que um vá, tem que lidar com a limitação de estar fisicamente conectado ao outro, o que é um problema, pois, logo no início, eles demonstram interesses diferentes. Um deles se atrai por uma fruta e o outro por um pássaro que tenta comer a fruta. Daí surge o primeiro conflito, pois, quando um deles tenta afugentar a ave para preservar o alimento, o outro, compadecido pelo animal, tenta segui-lo, mas sua união peculiar os impede de se separarem por completo. O cabelo que os une, entretanto, cresce ao longo do tempo e permite que se afastem um pouco mais e mais, até quase esquecerem um do outro, tamanha distância que se forma entre eles. 

Um deles descobre que o fruto, quando plantado, cresce e se multiplica. Já o outro, enquanto se afasta, encontra um bando de pássaros iguais àquele que perseguia. Nesse momento, eles nunca estiveram tão distantes um do outro. Assim fazemos na vida.

Todos temos nossos interesses pessoais e os alimentamos com nosso tempo, dedicação e nossos recursos. Dependendo do nível de envolvimento, podemos chegar ao ponto de transformá-los em um mundo completamente à parte do real, onde só isso importa. Isso pode nos distanciar uns dos outros a tal ponto que consideramos não nos envolver com quem não se interessa pelas mesmas ‘frutas’ ou pelos mesmos ‘pássaros’. Ou simplesmente não conseguimos conviver com quem não nos “entende”. Essa frustração incomoda, pois não conseguimos entender realidades diferentes das nossas e não conseguimos ser compreendidos também. E, se não o conseguimos e nos frustramos, é porque em algum grau estamos conectados uns aos outros, mas não sabemos lidar com isso.

Isso acontece porque tudo o que existe é fruto de algo anterior, seja uma planta, uma pessoa, um evento ou mesmo uma ideia. Essa é a conexão das causas e consequências ou, como os orientais chamam, Lei do Karma. Sofremos diariamente as consequências das ações de outras pessoas e muitas delas sequer estão vivas para receber a culpa que desejamos imputar-lhes. Recebemos o legado não só de nossa árvore genealógica, mas de pessoas responsáveis por ações que nem podemos imaginar que estão ligadas de alguma forma com o nosso momento. A forma como somos tratados por outras pessoas pode afetar como vamos nos sentir daquele momento em diante e a maneira como reagimos a isso, passando o sofrimento adiante através de uma descortesia, por exemplo. 

O Karma é uma lei universal, se expressa em toda a natureza e, diferentemente das normas que nós criamos, não pode ser violada, mesmo que assim o desejemos com todas as nossas forças. Se lanço um copo de vidro no ar, a menos que algo o impeça, ele vai cair, e provavelmente vai quebrar. Esta ação está sujeita à gravidade, outra lei universal, que não há como ser questionada ou ‘burlada’, cabendo a nós apenas viver com ela. O ser humano sempre quis voar e só conseguiu depois que aprendeu sobre gravidade, aerodinâmica, velocidade, todas as leis da natureza envolvidas no processo, e as obedeceu fielmente. Não há mágica nisso, apenas conhecimento da natureza aplicado com razão. Assim também é a Lei do Karma. 

Então, podemos concluir que negar a conexão que existe entre tudo e todos, é quase o mesmo que duvidar da queda do copo, que conta apenas com a gravidade entre ele e o chão. Não está sujeito a interpretações, simplesmente está destinado a seguir a lei. 

Não podemos controlar o que os outros dizem, pensam ou fazem, apenas quando isso parte de nós mesmos. Posso pensar em algo ruim sobre a atitude de alguém que me magoou, como o quão errada eu acredito que ela esteja, ou até como eu gostaria que ela recebesse a devida “justiça”. Posso, entretanto, escolher mudar o foco da minha consciência e pensar em algo diferente, que possa fazer o bem a outras pessoas e entender que não é responsabilidade minha colocar em movimento o Karma de alguém, pois as leis da natureza não precisam de executores, funcionam pelos seus próprios mecanismos inteligentes.

No curta, os dois personagens vão se afastando tanto que já não pensam mais um no outro. Quando seus cabelos se rompem, a reação imediata de ambos é tentar manter a conexão, evitar que se parta. Isso acontece também conosco, quando estamos unidos a pessoas com interesses diferentes dos nossos, mas a quem amamos, como nossos pais ou irmãos, de quem discordamos várias vezes mas nunca deixamos de amar. Nós nos afastamos, pois não queremos lidar com as diferenças entre nós, mas, no fundo, acreditamos que sempre os teremos por perto. Quando estamos prestes a perdê-los de uma vez por todas, lutamos para que isso não aconteça.

No fim, as duas pessoas do curta se dão conta que, se plantassem, haveria fruta o suficiente para que o pássaro não precisasse ser afugentado, assim como havia aves o bastante para que não fosse preciso correr atrás delas. Com alimento sobrando, os animais seriam atraídos e os protagonistas nunca precisariam ter se separado.

Não somos juízes do Karma, portanto, não nos cabe aplicar consequências sobre as ações de outras pessoas, mas é imprescindível entender que nossas ações, as únicas que podemos realmente controlar, podem ser transformadas em causas de muitas boas consequências. Se é difícil pensar em salvar o mundo todo de uma só vez, podemos ao menos nos tornar pessoas melhores, que, por onde passam, fazem o bem e ajudam a quem precisa, seja com recursos, boas palavras ou boas ações.

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